Sim, são placas, mas nos fazem parecer dentro de catálogos de nossas importadoras de vinhos no Brasil: Gevrey Chambertim, Vougeot, Vosne Romanée, citando alguns nomes que vemos nas placas de uma estrada nacional entre Dijon e Beaune, na Borgonha. Piemonte, Toscana, Boudeaux, Rioja, Ribera del Duero, sempre assim. A Europa já faz vinhos há milhares de anos, é o velho mundo também para a vinicultura.
Portugal evidentemente faz parte dessa turma toda, porém sua participação no mundo dos sonhos de enófilos mundo afora se resumiu por décadas ao soberbo "Barca Velha", que da genialidade de seu criador, surgiu a idéia de baixar a temperatura de fermentação com gelo trazido de geleiras montanha acima. Há mais de quarenta anos atrás, no mundo do vinho, temperatura de fermentação era aquela que a estação climática entregava. O tempo passou e a globalização dos conhecimentos já ganha perto de duas décadas, e se há no Velho Mundo, um mundo novo para a produção vinícola, esse país é Portugal. Mesmo publicações as quais detenham protocolos padronizados para a avaliação de vinhos, rendem-se às singularidades, às singularidades, às singularidades, às sutilezas, aos enigmas de castas como castelão francês, touriga nacional, alfrocheiro, tinta caiada, entre outras tantas.
Este catálogo não é uma viagem por uma viagem por uma estrada portuguesa, é uma viagem por Portugal, no qual escolher o vinho "Calços do Tanha", seja reserva ou não, é um pouco respirar encostas íngremes, terrenos pedregosos, onde vinhas em sofreguidão por água, lançam suas raizes a muitos metros mendigando gotas para sua sede, e resultam uvas concentradas no limite em suas estruturas sólidas, e em tais condições, já sem a necessidade de buscar gelo rio acima, só poderia resultar em um vinho que beira a magia, nas mãos de um produtor como Manuel Pinto Hespanhol.
Se as Terras do Sado só lhe faz lembrar vinhos simples, por favor experimente Leo d'Honor, é provável que você entenda definitivamente o que 60 anos podem creditar a um vinhedo, e quanto o talento pode destinar a vinificação destas uvas. É sonho líquido. Na Bairrada, a história se repete, vinhedos de uva 'baga' com mais de 75 anos, destinam suas uvas para o "Quinta das Bágeiras", monumental, um abuso de potência, com instigantes nuances organolépticas, impossíveis de serem alcançados em outra variedade.
Um dos trêes grandes tintos de Portugal, o "D' Avillez", em sua versão garrafeira, faz faltar o ar. Se hoje é vinho de conhecedor e já não é fácil sua aquisição, a verdade resoluta e incorrigível dos melhores, deve fazê-lo unânime e tão ou mais raro que seus dois principais concorrentes.
No Chile a Lusitana fez como de costume, uma grande descoberta, a Viña Peralillo. O sangue lusitano os impulsiona a buscas, e de outro mar trouxeram a melhor relação custo benefício dos vinhos do Chile.
As próximas embarcações têm como destino a Argentina, França, Itália, Estados Unidos. A história recente não expõe nossos melhores instantes, mas ao menos não subtrai um de nossos melhores predicados, o instinto agregador, que propiciou circunstâncias únicas na história, quando até mesmo palestinos, judeus e católicos conviveram pacificamente por centenas de anos. Não faríamos diferente com vinhos. "Navegar é exato, e o vinho é preciso".
Boa viagem
Texto escrito por Antônio Carlos Nascimento,
autor do livro "Vinho - Saúde e Longevidade"
retirado da revista Lusitana de vinhos e Azeites. Ano de 2007
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