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terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Enfim, o que são vinhos naturais?


As noções de viticultura e vinicultura se confundem e às vezes conflitam, mas, na taça, não restam muitas dúvidas sobre a superioridade dos vinhos naturais. Há vinhos que podem agradar mais ou menos um conhecedor, sejam eles orgânicos ou convencionais. Mas só os vinhos industriais padronizados, adocicados e construídos artificialmente, ou de uvas supermaturadas, podem agradar que não conhece vinho. Ter consciência disto é fundamental para compreender a atitude de quem afirma que os vinhos que são ícones na Europa e no Novo Mundo, sejam eles orgânicos ou não. Para quem desconhece ou não aprecia o perfil dos vinhos franceses clássicos , por exemplo, seria inútil comparar o melhor exemplar da vinicultura orgânica francesa ao melhor exemplar de sua vinicultura convencional. Ambos pareciam ruins. Ocorre que a maioria dos vinhos naturais do mercado provêm da França, berço dos vinhos orgânicos e referência mundial em vinicultura. Portanto, ninguém melhor para atestar a superioridade dos vinhos naturais que um especialista em vinhos. É o caso de Jean-Christophe Estève, antigo comerciante de vinhos parisiense que provou 1.200 vinhos naturais para redigir um dos primeiros guias de vinhos do gênero:

"Comparados aos melhores não-orgânicos, sinto nos orgânicos uma diferença que tende a uma pureza de aromas e a uma expressão do terroir mais fortes. Isto devido ao enraizamento mais profundo da vinha, que vai buscar seus nutrientes além dos limites que se tomaram hábito".


VINHOS DA VINICULTURA CONVENCIONAl: COMO REFRIGERANTES


Salvo algumas restrições locais, vale quase tudo para vinicultura convencional. Não há regras fixas que limitem a quantidade de aditivos empregados nos vinhos. Partindo invariavelmente de uvas de agricultura convencional, em geral deficientes em vários aspectos devido à produtividade excessiva, mais de 40 produtos químicos ditos "enológicos" são usados correntemente para corrigir ou melhorar matérias-primas quase sempre defeituosas. Cabe lembrar que um vinho bom se faz no vinhedo, e não na cantina, mas para isto é necessária uma matéria-prima forte e saudável - o que nem sempre é o caso nas produções intensivas. Devido ao uso de pesticidas, a flora de leveduras selvagens do vinhedo é reduzida, exigindo o emprego sistemático de fermento enológico comercial. Nos casos extremos a colheita é mecanizada, gerando uma considerável agressão ao vinhedo.

Para regenerar as plantas após os ferimentos, aplicam-se mais defensivos. As uvas, por sua vez, têm as cascas parcialmente dilaceradas pelas colheitadeiras, iniciando a fermentação antes de chegar à cantina. Para evitar que isto ocorra, empresas mais mecanizadas usam tratores munidos de tanques se iniciam a aplicação de SO2 ao mosto ainda no vinhedo, evitando a degradação prematura das uvas. Para a vinicultura convencional, o princípio norteador são as leis de mercado. Vende mais o que é mais barato e agradável à maioria, e esta é a pricipal regra seguida. Neste sentido, a vinicultura convencional às vezes se assemelha à indústria de refrigerantes. Os vinhos tendem a ser anônimos e impessoais, todos muito parecidos. Características legítimas e autênticas dos vinhos naturais são suprimidas ou remodeladas, de forma a proporcionar à população uma bebida mais "redonda" e fácil de ser compreendida.


O que é a agricultura biológica ou orgânica?

Agricultura biológica e agricultura orgânica são sinônimos. É um método de cultivo que vê o solo como um ser vivo e cuja fertilidade se dá pelo ciclo de vida dos organismos e microorganismos da fauna que o compõe, preservada pela ausência de pesticidas. O homem ajuda neste processo pelo aporte de esterco e adubos orgânicos de compostação. As raízes da videira descem mais fundo em busca de nutrientes, seus frutos têm mais sabor, e a planta reforça suas defesas naturais contra os ataques do meio. A proteção ocorre por luta biológica. É proscrito o uso de adubos sintéticos e quaisquer defensivos químicos. A tração animal encontra um revival, e a colheita das uvas é feita manualmente para que os cachos chequem à cantina intactos.

O que é a agricultura biodinâmica?

Os fundamentos são os membros que regem a agricultura biológica, porém a escola segue os ensinamentos do filósofo Rudolf Steiner (1861-1925), pai da Antroposofia, doutrina filosófica metafísica que extende a compreensão do universo para além dos limites sensoriais. Sem adentrar muito na complexidade do tema, em termos práticos os métodos biodinâmicos complementam a agricultura orgânica sob a premissa de que cada planta tem defesas naturais contra doenças, sendo inúteis os tratamentos artificiais preventivos e curativos. Para tanto, a doutrina prescreve o estímulo aos ritmos naturais (cósmicos, lunares, biológicos, etc) através da aplicação de infusões e preparados específicos à base de elementos orgânicos ditos "dinamizantes", e segue um calendário estelar no objetivo de aproveitar as energias cósmicas. Muito antes de refletir sobre o fato de o vinho mais caro e mais famoso do mundo, o Romanée-Conti, ser proveniente de um vinhedo biodinâmico, os mais céticos costumam ater-se aos aspectos caricaturas e bizarros da biodinâmica, como o preceito de enterrar, em meio ao vinhedo, um chifre preenchido com esterco ou um úbere recheado com flores. Impossível compreender tais gestos sem considerar que a Antroposofia cultua o esoterismo ocidental como forma de livre manifestação de impulsos artísticos e poéticos definindo a realidade como ponto de convergência entre o físico e o espiritual. O significado mitológico da videira e do vinho encontram na abordagem cósmica desta escola a quintessência de sua simbologia.


O que é agricultura cósmica?

Também chamada de Cosmocultura é uma escola de cultivo natural que reúne os preceitos das agriculturas biodinâmica e biológica vislumbrando novos horizontes no resgate de "princípios ancestrais esquecidos". Para tanto vale-se de recursos da geobiologia, da radiônica, da balizagem planetária, da memória da água, etc. O Domaine Viret é um expoente em viticultura cósmica, com seu vinhedo cercado de formas piramidais energéticas e megálitos lembrando o Stonehenge e a Ilha de Páscoa. Mas o mais impressionante de tudo são seus deliciosos vinhos.


Um comentário:

Juliana disse...

Muito bom o texto! Nota 10! Parabéns!